«Dissolvo, não dissolvo; dissolvo, não dissolvo». Pétala a pétala, o malmequer vai ficando reduzido a uma simples auréola amarela, enquanto o regaço presidencial se vai enchendo de folhinhas brancas. «Esta última pétala parece-me bicéfala ... e agora, que faço?». As pernas republicanas encostadas nos joelhos vacilavam perante a Decisão, fazendo com que algumas folhinhas fugissem por entre o rego dos abdutores. «Preciso de outro malmequer, este não é claro ... ou talvez seja, talvez seja apenas uma rugazinha, talvez ...». As mãos do líder comprimem-se em redor do caule da flor, enquanto o exprimido suco fotossintético escorre para as calças engomadas do PR. «Se calhar devia ter dado ouvidos aos meus com ... selheiros. Devia ... ou talvez não». Com o queixo apontado à janela palaciana e os olhos fitos no sereno Tejo, o Chefe de Estado buscava nas frescas recordações da sua actividade política os incontáveis telefonemas de distintas personalidades, mais ou menos amigas, que ao longo de quatro meses o causticavam pela Decisão. «Eu decidi, eu tinha de decidir. Fiz bem, decidi!». O turbilhão da mente presidencial revolvia frases azedas, ressentimentos amargurados e outras azias mais ou menos gástricas a que vinha estando sujeito, dia após dia, quase sem descanso. Ultimamente já não tinha fome, nem vontade de ler, nem coragem de sintonizar a SIC Notícias à hora do Opinião Pública. Era cada vez mais difícil adormecer e quando isso acontecia os pesadelos com a Comissão Europeia, a Câmara de Lisboa e o Largo do Rato faziam-no acordar lavado em suores gelados. «Ninguém percebe como é difícil decidir, nem os meus camaradas de luta». Uma lágrima escorria pelo canto do olho embaciando ligeiramente o óculo presidencial esquerdo. Estava triste, quase todos de quem gostava o tinham abandonado e mesmo as partidas de golfe que tanto o descontraiam tinham sido canceladas. «A culpa é do Flopes ... e da Comissão ... e do Largo do Rato». Com o menear da cabeça republicana o malmequer agora monopetálico, bicéfalo ou não, estremeceu e entortou um pouco o seu quase esmagado caule. «Tudo começou na tomada de posse. Caramba, uma hora à espera! Bom ... também é verdade que sempre serviu para ficar a conhecer bem todos os ministros do XVI, já que do anterior foi tudo tão rápido, uns a entrar e outros a sair, que nem fiquei a saber quem eram. Ahh e ver o Portas de boca aberta por ficar com a pasta do Mar valeu por tudo! Mas depois a Educação. Coitadinhos dos professores. Também é verdade que para o XIII e o XIV a Educação era Paixão e deu em divórcio ... É. Mas há as trocas dos secretários de estado ... se bem que eu também não achasse muito bem uma mulher com a secretaria da Defesa. O Sarmento ... ahhh esse Sarmento». Um esgar pronunciado fez brilhar uma fileira de dentes presidenciais. «Nunca gostei desse Sarmento, nem da Agência, nem da ingerência ... se bem que, convenhamos, as contas da RTP equilibraram-se e lá se definiu o que é afinal o conceito de Serviço Público. Pois, mas a pressão ao Professor é que foi demais! Todos têm o direito de emitir opiniões contrárias, com ou sem contraditório! De qualquer forma, deixei de ver a TVI depois do Zé Maria ter ganho o Big Brother 1 ... A gota de água foi o Chaves, amigo do Flopes, que até me lembrou o Gomes do Porto, tão amigo do Guterres ...». Um suspiro do Chefe de Estado quase fez cair a resistente pétala do malmequer, cujo caule, entretanto, já transparecia uma cor acastanhada. «Foi a Comissão quem teve a culpa! Se não tivesse convidado o Mister Barroso nada disto tinha acontecido! E o Largo do Rato?! Que injustos! Eu não podia, eu não podia ...». Por esta altura, a lágrima, outrora largada pelo canhoto olho presidencial, já pingava do queixo em direcção ao floral regaço do PR. «Tive de decidir. O Largo do Rato estava desarrumado, com o Ferro entre a espada e a parede. Só faltava empurrar a espada e abrir as portas ... humpff ... e abrir os portões ao Sócrates. Eu nunca esqueço os amigos!». Um último estremeção corporal derrotou a pétala que, ao desprender-se da flor, esvoaçou até poisar no braço esquerdo do cadeirão do palácio. «Dissolvo ...». Fitando a alvura da folhinha o republicano laico decidiu. «Vou dissolver! O PM vai ser informado o quanto antes». Entretanto, um badalo seguido do anúncio da chegada do PM fez o PR largar a flor depenada de caule esmiufrado para bem longe. «É ele, é verdade, está na hora! Vou-lhe dizer que vou dissolvê-lo. Eu decidi!». Levantou-se do cadeirão, afastou as pétalas que ainda residiam no seu regaço, ajeitou o nó da gravata e pigarreou para ganhar confiança. «Ai, meu Deus, esqueci-me do Conselho ... e da Assembleia! E agora? Eu já decidi ... e se eu não decidir?! Não, não. Vou dissolver! O Conselho vai ficar satisfeito com a Decisão, com certeza. A Assembleia ... bom, depois convido o Amaral para vir cá a casa. Certamente que a Maria há-de arranjar uns bons bifes de tubarão à moda de S. Miguel». Olhou ao espelho, deu um pequeno retoque nos óculos de aro republicano e saiu ao encontro do PM que, sem saber, já estava dissolvido.
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